quinta-feira, julho 31

Pensando bem.

Desde meu último dia ao lado de minha tia no hospital, tenho me feito mil perguntas sobre como os médicos tratam a vida de seus pacientes. Vasculhei todo meu cérebro a procura de palavras que dessem algum sentido a tudo que de alguma maneira eu PRECISAVA dizer...mas pensando bem, prefiro que outro fale por mim, então lá vai:

Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves




O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.


E ele disse tudo.


By Rubem e Cris.

quarta-feira, julho 30

' Se Deus não me tirou da costela dele então só o próprio Deus pra explicar como pode ele sentir como eu sinto '


Ontem vivi a alegria de um reencontro, que por falta de palavra melhor, foi simplesmente MA RA VI LHO SO. Encontrar um HOMEM lindo, cheiroso, que eu posso apertar, beijar, cheirar, amassar o tanto que quiser sem ter que explicar nada à ninguém, e saber que tudo que sinto e fiz, e tive vontade de fazer e Deus sabe por que não fiz, veio dele para mim.
É porque diferente da maioria das relações de hoje em dia, o que NÓS temos ( e sim,somos um NÓS ) é transcendental. Se eu acreditasse em vidas passadas diria que em alguma delas ele foi Adão e eu Eva, porque como ele mesmo disse ' Se Deus não me tirou da costela dele então só o próprio Deus pra explicar como pode ele sentir como eu sinto ' e vice-versa.
Tenho mil e uma histórias pra contar sobre esse ser DE LI CI O SO de 1,90 de pura morenice e palavras que me deixam sempre boquiaberta, mas não sei se coloco-as aqui ou num outro lugar que penso em dividir com ele. Um cantinho pra chamar de NOSSO Acho que por enquanto vou só me deliciar com a presença desse meu grande e PER FEI TO 'Lovere'. Até porque sei bem que sua passagem pelo Rio será curta, como todas as outras que deixaram marcas lindas e uma saudade que só nós sabemos como é bom ter.
Que alegria maior uma mulher pode ter, que guardar em seus braços... guardar em seu abraço o corpo daquele que é lindo como RODOLFO e que sabe despertar em mim o melhor e o pior de todas as NORMAS. Porque com ele sou Mulher e ao meu lado ele é só um Garoto.
E por mais que demoremos a nos descobrir apaixonados haverá este ar misteriosamente envolvente todas as vezes que nossos olhares se cruzarem. E basta que eu sinta seu perfume, a quilômetros de distância para que eu perca os sentidos, a razão, a sanidade...
Alegria. Imensa a minha alegria por ter reencontrado um colo que jurava ter perdido.




By Cris

terça-feira, julho 29

NUA

Durante esses últimos dias com minha tia no hospital, tenho experimentado de perto o máximo da miséria humana. A minha e a dela: Nossa nudez.
Esta que para os ardentes apaixonados é sinônimo do ADORADO e ( excessiva e estupidamente ) IDOLATRADO sexo, para aqueles que agonizam em gélidos leitos de hospitais é somente o fundo do poço ou pelo menos a certeza de que por maior que seja nossa força interior e vontade de viver quando nos encontramos nessa posição somos menos que qualquer um. E para mim é a dor de aprender a amar na vergonha de estarmos nuas e esta estranha alegria de me sentir amada nas minhas maiores misérias.
Jesus diz que devemos ser o menor dentre os menores para termos o céu, e sei que é assim.. Mas ninguém me disse que seria a menor estando nua.
Quando Adão e Eva cobriram ' suas vergonhas ' estavam assinando sua culpa. Se tivessem permanecido nus, pequenos, vulneráveis, dependentes.. Completamente dependentes de uma vontade maior. Se tivessem simplesmente permanecido NUS...
Não sei ( e não saber é uma constante em mim ) e não sei se quero saber ( e isso é novidade ), Acho que por medo da resposta, o quanto estou nua agora e o quanto ainda terei que ficar para quem sabe um dia entrar naquele céu no qual eu preciso acreditar, pois do contrário toda essa NUDEZ existente será simplesmente humilhante demais. Dolorosa demais.. talvez inaceitável.
E o mais incrível em tudo isso é que mesmo com toda essa minha falsa superioridade é ela que do alto de sua humilde nudez me ensina, como sempre ensinou, a ser hoje um pouquinho melhor que ontem.

Gratidão tia. Eterna gratidão por essa segunda chance.

By Cris ( sentindo-me nua e impotente, mas de alguma maneira feliz e confiante )

From the hospital

Esperando e rezando.

segunda-feira, julho 28



' Boa tarde senhoras, senhores, meninos, meninas e afins. Uma excelente tarde ;) '


É comum nos dias de hoje as pessoas se julgarem conhecedoras dos corações alheios, dos medos, incertezas e podridões que todos guardam no mais íntimo de si. E quanto mais jovens são, mais experientes se acham na arte de conhecer o desconhecido.

Mas já diz o velho ditado ' coração dos outros é terra sem rei ' e se não há rei, não é conhecida. Talvez até busque ser descoberta, desbravada, desarrumada, mas até que isso seja uma escolha pessoal, até que esse desejo saia do mundo imaginário que cada um cria pra si, então é de veras impossível saber o que o outro sente e a única maneira de saber (superficialmente) o que é isso tudo que fazem tanta questão de manter oculto, é com um pouquinho de honestidade.
Hoje tão em falta nos relacionamentos humanísticos, essa master piece já foi primordial em muitos relacionamentos. Ou pelo menos em muitas fantasias.
Há uma cena muito simples e muito bonita num dos filmes que mais aprecio onde o ator diz: ' Quando amamos de verdade entao falamos!! Gritamos alto pra que todos ouçam. Sem medo de ser ridículo, sem vergonha de parecermos estranhos e sem pudor ' porque no fundo todos sabem o quanto é importante ouvir um EU TE AMO.
É também verdade que um olhar que diz AMAR, inúmeras vezes supera qualquer palavra que se declare, mas por que só amar com o olhar?? Por que sempre esse amor silencioso quando faz-se necessário um barulho estridente??
Basta de tanto silêncio.
Basta de tanta quietude...Basta desse medo de ser ridículo. Basta!
Que o verbo do dia seja conjugado no alto do maior dos edifícios, na janela mais próxima ao maior número de ouvidos. Que o verdo de hoje comece com EU...


Porque EU AMO!!! E falo. Sem medo de ser ridícula, afinal de contas isso não é um jogo. Ou é ?
By Cris