
Verdade ou Consequência.
Na verdade não consigo lembrar do início exato, só sei que faz tempo. Muito tempo.
Acho que meu corpo ainda era roliço, pequeno e queimado de sol. Meu rosto ainda não conhecia os desprazeres da puberdade, nem os milagres da maquiagem. Acredito também que naquela época, apesar de ter consciência dos meus atos e saber que poderiam ter consequências desagradáveis, isso era algo feito com muita inocência e uma dose extravagante de necessidade de aprontar.
Sim, porque afinal toda criança precisa aprontar umas travessuras de vez em quando,e não era muito diferente com a pequena Nina. O problema é que eu já tinha uma irmã travessa o suficiente por nós duas, então era necessário que minhas traquinagens fossem diferentes, e de preferência que ninguém nunca as descobrisse.
Com o tempo me tornei realmente boa nessa 'arte'. Essa arte que era só minha e da qual ninguém tinha conhecimento. Era como se eu tivesse criado um mundo só meu onde pudesse ser quem bem entendesse. Qualquer pessoa mesmo. E nesse mundo ouvesse um segredo que também era só meu.
Não sei bem quando, mas aconteceu de a criatura se virar contra o criador e nessa roda gigante onde o cachorro passa a correr atrás do próprio rabo, me vi encurralada num beco sem saída. E sempre me parece tarde demais pra fugir, pular fora e esquecer. Sempre é difícil demais.
Como sair agora que há tanta gente envolvida? Como dizer que o Sim, na verdade era Não e o Não nunca será sim? Como olhar nos olhos de tanta gente que confiou e confia em mim e dizer : " Era brincadeira!" ? Como explicar que essa foi a maneira encontrada por mim, aos 6 anos de idade para fazer parte de algo, ser alguém que realmente valesse a pena conhecer. Alguém interessante, com histórias pra contar. Histórias como as que a Gabriela tinha e que faziam todos prestarem atenção nela durante todo o recreio.
Meus pais nunca se divorciaram como os dela. Eles morreram anos depois, mas ninguém gosta de falar sobre a morte. Divóricio sempre é mais comentado.
Anos se passaram desde a minha primeira vez e agora que sou quase uma expert nisso, meu maior desejo é que nunca tivesse feito nada. Que meus personagens nunca tivessem saído da minha imaginação, nem os conflitos tivessem sido materializados. Queria que todas as minhas fantasias tivessem sido trancafiadas no mundo da minha fantasia, porque talvez lá, agora elas não me torturassem tanto. Talvez presas a mil correntes, ameaçadas por centenas de armas, guardadas por gigantes ferozes,elas hoje não fizessem com que eu me sentisse hipócrita e sozinha.
Mas como diria qualquer sábio lúcido, existe sempre uma saída para tudo. Inclusive para becos sem saída. E apesar de não querer admitir, eu conheço a saída do meu. Ela está onde sempre esteve ... Na coragem que eu não tenho de admitir meus erros, pedir perdão àqueles que magoei e escrever uma história diferente dali por diante.
Kiu